domingo, 14 de dezembro de 2025

Viva - A Vida É Uma Festa (Coco) - O Poder das Memórias

"Viva – A Vida É Uma Festa" (título original: Coco, 2017) não é apenas uma das animações mais visualmente deslumbrantes da Pixar; é uma carta de amor profundamente emocionante à cultura mexicana e, principalmente, ao poder eterno da memória.

Miguel, um jovem que sonha em ser músico sai para uma jornada mágica e colorida ao Reino dos Mortos durante o Día de los Muertos. Longe de ser um lugar sombrio, este reino é vibrante, cheio de luzes e de festa, retratando a crença mexicana de que a morte é apenas mais uma etapa do ciclo da vida.

A “chave” sensível da mensagem dessa animação consite na ideia que, a verdadeira morte não ocorre quando o corpo se vai, mas sim quando a última pessoa que pensava em você se esquece de quem você era. O filme constrói de forma magistral o conceito da Honra Ancestral, mostrando que a família é uma corrente inquebrável, onde cada geração depende da lembrança da anterior.

A animação enfatiza a importância das oferendas (altares) como pontes que ligam o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, garantindo que os ancestrais possam retornar. Através de canções emocionantes e reviravoltas na trama, somos lembrados que o amor e a lembrança são a verdadeira imortalidade. 

É uma obra-prima que celebra a cultura, o perdão e nos ensina que manter viva a memória de quem amamos é a mais poderosa e bonita forma de continuar a vida. O amor ultrapassa as barreiras das gerações e da vida e da morte.

 

Trailer 

The Life of Death - A Vida Da Morte


O curta-metragem de animação "The Life of Death" é uma obra poética e profundamente sensível que nos convida a repensar a figura temida da Morte. Longe de ser um vilão sombrio, a Morte é aqui retratada como uma figura solitária e melancólica, cujo destino é ser eternamente separada daquilo que mais ama.

À partir de um desejo impossível da Morte (o amor pela Vida) o espectador acompanha o sofrimento silencioso que ela observa de longe, a beleza do mundo e a inocência da Vida. É uma meditação visual sobre o amor não correspondido, a solidão intrínseca a certas existências e a inevitabilidade de que o fim e o começo estão sempre ligados.

A animação utiliza um estilo visual desenhado à mão (2D) que, com sua paleta de cores escuras contrastando com toques de luz, confere um tom de fábula atemporal. É um filme curto, mas de imenso impacto emocional, que trata a perda e a separação com uma ternura incomum.

Este tocante curta-metragem foi lançado em 2012 e é uma criação da animadora holandesa Marsha Onderstijn. A obra é um excelente exemplo de sua habilidade em contar histórias complexas e emotivas em um formato minimalista, utilizando a animação para explorar temas filosóficos com grande profundidade e lirismo visual.

 


 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

O Poder do Agora

A felicidade, o aprendizado, o amor, a vontade, a saudade, o acolhimento...

Todos estes sentimentos residem e se manifestam no instante presente, a cada respiração, a cada olhar, a cada gesto... A cada segundo do tempo.

Que possamos nos permitir viver o agora com a mesma doce e intensa saudade que um dia sentiremos do depois.



domingo, 9 de novembro de 2025

O que ficou no fim...

Este é um recorte da reflexão da Dra. Mariana Carvalho, médica geriatra e paliativista em Cuiabá/MT, que toca na profunda relevância de sua área.

Ao fim da jornada, as verdadeiras riquezas da vida humana não são grandiosas, mas sim a simplicidade dos pedidos mais singelos.

A Geriatria Paliativa prioriza a qualidade de vida e o conforto do paciente, não apenas a cura. A Dra. Mariana destaca que, no fim da vida, o que realmente importa são os desejos simples (como um abraço, um alimento específico, ou uma conversa). Isso ressalta a importância de um cuidado que enxerga a pessoa, e não apenas a doença.

Ela mostra que o "sucesso" na fase final da vida não é medido por conquistas materiais, mas sim pela paz, dignidade, e a realização de pequenos e significativos desejos. O cuidado paliativo garante que esses pedidos finais sejam ouvidos e honrados.


 


O Legado de Hanabiko "Koko"

Hanabiko "Koko" era uma gorila-ocidental-das-terras-baixas, nascida em 4 de julho de 1971, no Zoológico de São Francisco (EUA). No seu primeiro ano de vida, foi diagnosticada com uma doença intestinal. Por esse motivo e visando garantir seu bem-estar e tratamento, ela foi isolada e não pôde ser reintroduzida ao seu grupo original, uma decisão que mudaria o rumo de sua vida e da ciência.

Em 1972, a estudante de psicologia Francine Patterson "Penny", buscou um primata para seu projeto de doutorado sobre aquisição de linguagem. Penny começou a ensinar a Koko a Linguagem Americana de Sinais (ASL).

O projeto se expandiu rapidamente, sendo transferido para a Universidade de Stanford em 1974. A crescente necessidade de garantir a custódia e o ambiente ideal para Koko, além de dar continuidade à pesquisa, levou Penny Patterson e Ronald Cohn a fundarem, em 1976, a organização sem fins lucrativos "The Gorilla Foundation". Com isso, eles asseguraram a Koko um santuário dedicado ao seu estudo e bem-estar.

Ao longo das décadas, Koko tornou-se famosa mundialmente por sua habilidade de comunicação, chegando a dominar um vocabulário de mais de mil sinais. Em 2015, um vídeo emocionante foi registrado, onde Koko transmitia uma mensagem profunda e sensível aos humanos.

Koko faleceu pacificamente enquanto dormia, em 19 de junho de 2018, aos 46 anos, deixando um legado inestimável sobre a capacidade de comunicação e as complexas vidas emocionais dos grandes símios.

E você, já se perguntou se pudesse deixar sua última mensagem ao mundo, qual seria?






 

domingo, 26 de outubro de 2025

A morte e a cultura mexicana.

A cultura mexicana tem uma relação única e bastante particular com a morte, que se manifesta de forma mais vibrante no Dia dos Mortos (Día de Los Muertos), celebrado em 1 e 2 de novembro.

Longe de ser um evento sombrio, a morte é vista como uma fase do ciclo da vida e um motivo para festa, honra e memória dos entes queridos que já partiram. Acredita-se que, nesta data, os falecidos voltam à Terra para visitar seus familiares.

A celebração é marcada por altares coloridos (oferendas) decorados com flores de calêndula (cempasúchil), velas, caveiras de açúcar (calaveritas), e as comidas e bebidas favoritas dos mortos. Famílias se reúnem em cemitérios, limpam e decoram os túmulos, compartilham refeições e músicas, transformando o local em um espaço de convívio festivo.

Símbolo icônico "La Catrina"

La Catrina é uma das figuras mais emblemáticas do Dia dos Mortos e um ícone da cultura popular mexicana.

Criada originalmente como uma gravura satírica pelo cartunista José Guadalupe Posada no início do século XX, ela representava um esqueleto feminino, elegantemente vestido com chapéu e roupas da alta sociedade europeia. O termo "catrina" é o feminino de "catrín" (homem elegante).

O objetivo inicial de Posada era fazer uma crítica social àqueles que negavam suas raízes indígenas para adotar costumes europeus, lembrando que, no final, a morte é universal e não discrimina ninguém, não importando a classe social ou a riqueza.

Mais tarde, o pintor Diego Rivera a popularizou em seu mural Sonho de uma Tarde Dominical na Alameda Central (1946-1947), dando-lhe o nome de "Catrina" e vestindo-a completamente. Hoje, a imagem é usada para representar a festividade e a relação alegre do povo mexicano com a morte.

Sueño de una Tarde Dominical en la Alameda Central - Diego Rivera |  FeelTheArt 

Com cores vibrantes e um toque de magia, a animação 'A Vida é uma Festa' (2018) oferece um retrato sensível e bem-humorado de como os mexicanos encaram a morte, transformando o luto em uma festa de reverência à ancestralidade.

Un Poco Loco (Versão Em Português) - Viva - A Vida É Uma Festa -  LETRAS.MUS.BR 

Abaixo, um belíssimo vídeo extraído do Instagram (@catrinachristina e @build.and.believe)

 



 

 

domingo, 19 de outubro de 2025

O Paradoxo da Vida

A vida se revela em seu maior paradoxo: somos arremessados à existência sem um manual, obrigados a construir quem somos a cada escolha, ato e renúncia.

Nessa jornada, a essência do ser humano não é um ponto de partida fixo, mas sim o fruto dessa constante transformação. O paradoxo se estabelece na tensão entre a busca por um sentido (o que deve ser) e o que nos tornamos pelas nossas escolhas.

O verdadeiro encontro com a própria essência ocorre não quando encontramos uma resposta definitiva, mas quando abraçamos a responsabilidade de criá-la. É na vulnerabilidade de ser imperfeito, no caos das contradições e na consciência da finitude que o ser emerge, autêntico, como um projeto inesgotável. Viver, em essência, é suportar esse paradoxo.

 

 

Os tipos de Luto

O luto é uma resposta natural e complexa a uma perda significativa, que pode ser a morte de alguém, o fim de um relacionamento, a perda de um emprego, ou mesmo a perda de uma capacidade física, entre outros.

Embora o luto seja uma experiência muito pessoal e individual, a psicologia e a tanatologia (o estudo da morte e do morrer) identificam diferentes tipos e formas de manifestação, que ajudam a entender e classificar as reações das pessoas.

1. Luto Normal ou Natural

  • Características: É a reação esperada e saudável à perda, envolvendo as fases clássicas (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, embora nem sempre nessa ordem) e um período de tristeza e desorganização que, gradualmente, diminui com o tempo. A pessoa consegue, pouco a pouco, retomar as atividades diárias e reconstruir a vida, mantendo a memória do perdido.

  • Duração: Geralmente, dura de alguns meses até cerca de um ou dois anos.

2. Luto Complicado ou Prolongado

  • Características: A dor e o sofrimento permanecem intensos, incapacitantes e não diminuem significativamente com o tempo (geralmente, mais de 12 meses, dependendo da classificação clínica). A pessoa fica "presa" no luto, focada intensamente na perda, com dificuldade extrema em aceitar a morte, retomar a rotina e planejar o futuro. Pode levar a problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade crônicas.

  • Necessidade: Requer intervenção profissional especializada (psicoterapia e, às vezes, psiquiatria).

3. Luto Antecipatório

  • Características: Ocorre antes da perda real, geralmente quando a morte é esperada devido a uma doença terminal ou condições crônicas. A pessoa começa a se despedir e a processar a perda enquanto o ente querido ainda está vivo.

  • Função: Pode ajudar a amortecer o choque inicial quando a morte finalmente ocorre, mas também pode ser muito desgastante.

4. Luto Não Reconhecido (ou Desautorizado)

  • Características: É a dor pela perda que não é validada, aceita ou apoiada pela sociedade, família ou cultura. O luto não é "permitido" ou é minimizado.

  • Exemplos: Luto por um ex-cônjuge, pela perda de um animal de estimação, luto de um amante, luto gestacional ou neonatal (onde a perda é frequentemente minimizada com frases como "você pode ter outro"), luto de profissionais de saúde pela morte de pacientes.

  • Impacto: Por ser reprimido, o sofrimento pode se tornar mais intenso e difícil de ser elaborado.

5. Luto Ausente ou Inibido

  • Características: A pessoa não demonstra (ou não se permite sentir) nenhuma reação de luto imediatamente após a perda. Os sentimentos são bloqueados ou reprimidos, muitas vezes devido ao choque ou à necessidade de se manter forte para outras pessoas.

  • Risco: Se o luto não for processado, a dor pode ressurgir mais tarde (luto adiado) ou se manifestar através de sintomas físicos (psicossomáticos) ou transtornos de saúde mental.

6. Luto Adiado ou Tardio

  • Características: A reação de luto surge muito tempo depois da perda inicial (meses ou anos depois), devido a uma repressão inicial (luto ausente) ou por não ter havido oportunidade para vivenciar a dor no momento. O luto reprimido emerge quando as circunstâncias permitem ou quando há uma nova perda.

7. Luto Traumático

  • Características: Associado a mortes que ocorrem de forma súbita, violenta, inesperada ou em circunstâncias traumáticas (acidentes, suicídio, assassinato, desastres). Além do luto pela perda, há o trauma do evento em si, podendo levar a sintomas de estresse pós-traumático.

  • Sofrimento: O foco é menos na saudade e mais nas circunstâncias da morte.

8. Luto Coletivo

  • Características: Ocorre quando um grande número de pessoas é afetado simultaneamente por uma perda (desastres naturais, pandemias, ataques terroristas, tragédias em massa). A dor é compartilhada e vivenciada em nível comunitário ou social.

 

 

domingo, 14 de setembro de 2025

Setembro Amarelo

 

O que é o Setembro Amarelo?

O Setembro Amarelo é uma importante campanha de conscientização e prevenção do suicídio. Seu principal objetivo é lançar luz sobre essa triste e complexa realidade que afeta milhões de pessoas globalmente. A campanha promove ativamente o debate e o diálogo, essenciais para que a sociedade reflita sobre a fundamental importância de cuidar da saúde mental.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta dados alarmantes: anualmente, cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio em todo o mundo. Desse total, mais de 70% são homens e aproximadamente 20% são mulheres (dados de setembro/2022), evidenciando a urgência de abordarmos o tema com seriedade e acolhimento.

Como surgiu essa campanha?

No Brasil, a campanha Setembro Amarelo teve início em 2015, por iniciativa conjunta do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

A escolha da cor amarela e a inspiração para a campanha remetem a uma tocante história real ocorrida nos Estados Unidos, em 1994. Um jovem chamado Mike Emme era conhecido por restaurar um Ford Mustang 1968, pintando-o de um vibrante amarelo. Apesar de, aparentemente, ser um jovem comum de 17 anos e sem histórico aparente de problemas emocionais, Mike, infelizmente, tirou a própria vida.

No funeral de Mike, sua família distribuiu cartões com fitas amarelas, contendo uma mensagem simples, mas poderosa: "Se você precisar, por favor, peça ajuda". Essa iniciativa, que ficou conhecida como "Yellow Ribbon" (Fita Amarela), tinha como propósito central demonstrar que, assim como Mike talvez não tenha conseguido expressar seu pedido de socorro, outras pessoas deveriam saber que a ajuda está sempre disponível. A fita amarela consolidou-se como um símbolo global de prevenção do suicídio e, inspirada por essa memória, a campanha do Setembro Amarelo foi estabelecida no Brasil, com o firme propósito de conscientizar a população sobre a vital importância de falar abertamente sobre o tema.

Lembre-se: Se você ou alguém que você conhece está passando por dificuldades emocionais ou pensando em suicídio, não hesite em procurar ajuda. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional e prevenção do suicídio de forma gratuita e sigilosa, 24 horas por dia, pelo número 188. Sua vida importa!

Documentário Vita Alere: Sobre Viver Precisamos Falar de Suicídio










sábado, 2 de agosto de 2025

A Vida que Renasce

Por Que Estou Compartilhando Esse Vídeo? 

Porque só quem viveu a corrosão emocional causada pela dependência química compreende à fundo o mal individual e coletivo que é propagado.

Quantos tiveram suas infâncias roubadas porque os pais eram usuários de drogas? Quantos tiveram suas vidas interrompidas ou estagnadas, contribuindo para o fortalecimento da criminalidade, enquanto seus corpos e suas vidas eram deteriorados pela dependência química? Quantos se tornaram invisíveis por causa dela?  

O Que Este Vídeo Tem a Ver Com Luto, Morte ou Vida?

Quando um ser humano entrega sua vida à dependência química - e aqui, não faço juízo de valor, pois todo vício esconde uma dor dilacerante - ele se perde e perde parte da sua vida. Fico pensando, o quanto pode ser doloroso se conscientizar disso? Será que essas pessoas processam esse luto? E qual o limiar do luto para a luta?

Para mim, esse vídeo representa a magia da escolha de um caminho melhor: sair de um caminho de morte para o caminho da VIDA. É onde a vida acontece nos detalhes, naquilo que muitos negligenciam, naquilo que dizem ser o divino "livre arbítrio". É o poder da escolha de se levantar, se reconstruir e verdadeiramente existir: de forma inteira para si mesmo, para alguém que se ama, para a VIDA. 


 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

O Pior Vizinho do Mundo


Acabei de assistir ao filme "O Pior Vizinho do Mundo", e ainda me sinto tocada pela estória de Otto Anderson, brilhantemente interpretado por Tom Hanks. 

Um homem que, após a perda da esposa, se torna amargurado, fechado e mau-humorado, que busca incansavelmente ocupar o próprio tempo, cuidando das coisas que o rodeiam. Uma forma de se desviar da própria dor, uma forma de não suportar sua vida e seus sentimentos, uma armadura criada para que as pessoas não vejam o quanto sua dor o deixa vulnerável.

Ao longo da trama, Otto tenta várias vezes se "despedir" da vida. Mas é como se uma força maior o impedisse. E a leitura que faço desse recorte é que, a vida luta pela vida o tempo todo. Por mais que haja dor e sofrimento, a vida luta pela vida através de pequenos gestos de amor, gentileza, acolhimento... 

A vida luta pela vida e nos assopra aos ouvidos "Eu sou a vida e estou aqui com você"! Ela se manifesta nos pequenos gestos: no sorriso de um vizinho, num prato de comida partilhado, num abraço inesperado ou na lembrança de um amor que não se apaga.

Por mais escura que a noite pareça, há sempre um fio de luz tentando nos alcançar.
Memento vivere — lembre-se de viver.

sábado, 12 de julho de 2025

Nossa Senhora da Boa Morte


Nossa Senhora da Boa Morte é uma devoção mariana (veneração à Virgem Maria) presente em diversas regiões católicas, especialmente no Brasil. Acredita-se que essa invocação surgiu da crença na Assunção de Maria ao céu, ou seja, que ela teve uma "boa morte" — uma passagem serena e sem dor, acolhida diretamente por Deus.

A palavra "boa morte" não se refere apenas à ausência de sofrimento físico, mas à paz espiritual e à salvação da alma no momento da partida.

A devoção tem raízes portuguesas e espanholas, trazida para o Brasil durante o período colonial. No século XIX, essa figura mariana foi profundamente incorporada à religiosidade popular, especialmente entre mulheres negras libertas e escravizadas, que viam na imagem da Santa um símbolo de esperança diante da dor e da injustiça.

Irmandade da Boa Morte (Bahia – Cachoeira)


                                                                                                                        Fonte da imagem G1    


Talvez o exemplo mais famoso dessa devoção no Brasil seja a Irmandade da Boa Morte, formada por mulheres negras católicas em Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Fundada no século XIX, a irmandade é um marco da resistência negra e da espiritualidade afro-brasileira.

Características:

  • Mulheres mais velhas e respeitadas da comunidade;

  • Vestem-se com roupas de gala e trajes litúrgicos;

  • Misturam elementos do catolicismo e do candomblé;

  • Realizam procissões, novenas, rezas e festas com danças e comida típica.

A Festa da Boa Morte

Realizada geralmente entre os dias 13 e 17 de agosto, a festa celebra a morte e assunção de Maria, mas também é uma forma de reafirmação da cultura afro-brasileira, da fé e da luta contra o racismo.

A festa é dividida em dois momentos:

  1. Rito religioso: missas, cânticos e procissões.

  2. Celebração popular: samba de roda, comidas típicas, confraternizações, oferendas.

Simbolismo Espiritual e Tanatológico

  • Maria representa o acolhimento no momento da morte, como um portal entre o mundo dos vivos e o divino;

  • A devoção traz conforto aos enlutados e esperança de uma transição serena;

  • Na tradição da irmandade, a morte não é fim, mas passagem;

  • Une o sagrado feminino, a ancestralidade, a espiritualidade negra e a luta por dignidade.

Além do aspecto espiritual, a Irmandade da Boa Morte é símbolo de:

  • Resistência negra feminina;

  • Luta pela liberdade e reconhecimento social;

  • Conexão com os orixás (sobretudo com Iansã e Nanã, ligadas à morte e ancestralidade).





domingo, 20 de abril de 2025

Leide Moreira - Olhos da Poesia

Durante os estudos, me deparei com essa história de amor à vida, de resiliência e um legado de fortaleza e sensibilidade. Às vezes, na minha mente é como se houvesse uma balança de dois pratos, de um lado a VIDA, do outro, a MORTE, e ela deve estar em equilíbrio, no que depender de mim. E histórias como a seguir, me fazem pensar sobre e sentir o verdadeiro valor da VIDA.

Leide Moreira nasceu em 24 de Fevereiro de 1948 em Franca/SP, em 1972 graduou-se pela Faculdade de Direito de Franca, atuou não só na área do direito como na cultura, escritora, poetisa; suas poesias se tornaram música pelo cantor Elder Costa (música "Procurando") como também, parcerias culturais com outros grandes artistas. Em meados de 2004 foi diagnosticada com a Síndrome de E.L.A (Esclerose Lateral Amiotrófica), Leide Moreira partiu em novembro de 2018.

Em uma das reportagens, vi que quatro de seus livros foram "escritos" através do sutil movimento de seus globos oculares, isso foi possível com essa belíssima vontade de viver que havia nela, o acompanhamento da equipe de enfermagem e o amor de sua filha, Leide Jacob. Dizem que os olhos são as janelas da alma, e foi com os olhos que Leide Moreira realizou sua obra literária. Deixou sua sensível colaboração e protagonismo para a arte, para as vidas que aqui ficaram.

Abaixo, deixo alguns links de reportagens e nomes das obras da escritora, poetisa, advogada, mãe e avó, Leide Moreira. 

Livros:

Letras da Minha Emoção (2006)

Poesias para me sentir viva (2008)

Não espere de mim apenas poesias (2009)

Leide Moreira

Reportagem do SBT Brasil (04/07/2013)

Poesia "Meu Jardim" de Leide Moreira, 
recitada por sua filha, Leide Jacob





domingo, 9 de fevereiro de 2025

O carnaval de "Cicinha"

Dulce criou três filhos e os educou muito bem, mesmo quando ficou viúva, nunca largou as rédeas da educação dos filhos. Mulher de sensibilidade e doçura ímpar e ao mesmo tempo fortaleza de sua família.

Os filhos cresceram, estudaram e trabalharam mas nunca deixaram de cuidar da mãe. Eram felizes, tiveram uns aos outros de forma pura e verdadeira. As lembranças deixadas por ela, foram as mais doces e tocantes.

Em determinado momento de suas vidas, foram pegos de surpresa, Dulce estava doente. Ninguém espera ser assolado por uma enfermidade que o fará partir. A levaram ao médico e... já não havia o que a medicina pudesse fazer por ela. O que os filhos fizeram, foi o de sempre, doar todo o amor e cuidado que também um dia receberam.

Antes da confirmação médica, pediu a um dos filhos: "Se um dia essa coisa (CA) me pegar, não quero que me contem". E assim, eles fizeram. O silêncio em relação à doença era sereno entre eles e a mãe. Ela era um mulher muito inteligente, só não queria ouvir o que ela já sabia. 

O médico aconselhou que voltassem a terra natal, Congonhas/MG; para que ela pudesse ficar mais próxima dos seus e ter alguma qualidade de vida até chegar a hora de sua partida.

Cicinha, como era conhecida, era foliã de carteirinha, amava pular carnaval, mas digo do carnaval das marchinhas, do Pierrot, Arlequim e Colombina. Inclusive, houve um ano em que Cicinha se fantasiou de Pierrot, esse personagem a encantava - apesar do amor platônico por Colombina - Pierrot trazia encantamento ao coração de Cicinha. Ela nunca abriu mão da realidade, mas era uma escolha lidar com ela com doçura e leveza, como brincar a magia do carnaval de outrora.

Dulce amou e foi amada, honrou e foi honrada pelo marido, foi cuidada com amor pelos filhos, foi uma mulher respeitada e admirada pela família e amigos. Em 30 dias hospitalizada, Cicinha teve o bálsamo que pouquíssimos têm, não foi tomada pela dor física, foram 30 dias sem dor. Em uma noite, pouco antes de sua partida, Cicinha contou a um de seus filhos:

"Meu filho, essa noite sonhei que estava pulando carnaval!" e sorriu como quem dizia, "Filho, é chegada minha hora, mas vou-me com a alegria que vivi, com dever cumprido de não ter deixado que o mundo apagasse minha doçura e nem sufocasse minha melodia".

E assim, Cicinha partiu, 'carnavaleando' com Pierrots, Arlequins e Colombinas...

Aos seus, deixou o legado da beleza e leveza desse sopro divino chamado VIDA.

Conto autorizado pelo filho, Geraldo Di Oliveira.

D. Dulce




A dor que virou música.

Essa música surgiu de uma dor na alma que através da arte, obtive o bálsamo. Agradeço a sensibilidade do amigo e músico, Geraldo Di Oliveira, gratidão pelo companheirismo e por estender-me a mão todas as vezes que precisei. "Tudo é momento" ele disse, e são nesses momentos em que fazemos a escolha pela VIDA é que a mágica acontece...

"Meu Universo é o Mar" é um desabafo, um suspiro de alívio. 
Letra: Bárbara Ramos
Música: Geraldo Di Oliveira
Bateria/Rítmo: Leandro Rezende




La Catrina


Não sou como muitos me vêem.

Sou, nada mais, nada menos

do que a transformação e a continuação da VIDA.

Posso ser um degrau da consequência, da reação...


Sou um degrau da Evolução.


Sou inevitável, e o meu maior poder...

O poder da transformação.

Transformar em algo bom ou ruim?

O que é bom?

O que é ruim?


Não depende de mim, e sim

do que você fará com isso.


Sou aquela que lhe convida a repensar a vida daqui...

Sou aquela que lhe convida a olhar com amor para si mesmo...

Sou aquela que lhe convida a olhar com amor para o outro...

Sou aquela que lhe convida a sentir a essência da VIDA... 


Sou aquela que lhe convida a refletir sobre sua bagagem...

A bagagem intangível, a que não se pode ver,

porque foi feita para sentir...


A bagagem vital.


Sou aquela que lhe acolherá no final,

estendendo-lhe as mãos para um novo começo.

Sou... La Catrina.


Bárbara Ramos (2019)


A queda

Ele estava cansado, a mente, o coração já não conseguiam processar situações rotineiras. Mas, por ser homem, e homem da segurança pública, seu papel era ser forte e inabalável; esse era o pensamento 'bigorna' que comprimia a sua mente a cada vez que ele tinha a sensação que iria cair.

O problema nunca é a gota d'água, e sim, a água que acumula dentro do copo. Aguentou, acumulou, não processou e... transbordou, explodiu.

O surto veio com a prematura foice, o corte abrupto que deixou família e amigos sem chão, sem resposta, num silêncio que dilacera. 

Na mente dos que ficaram, muitas perguntas e nenhuma resposta: por quê? ele parecia tão bem, conversamos ontem e parecia tudo bem... Parecia tudo bem...

Cada um de nós é um mundo, um universo, repleto de sonhos, vontades, anseios... Já passou da hora de enxergarmos com o coração uns aos outros. Muitos estão se perdendo em caminhos turvos por se sentirem DORmentes...

Mais um corte no fio da vida, menos um número para Katástasi. A sensação de desamparo, a angústia e a pergunta: "onde foi que nos perdemos quanto HUMANidade?".



Tempo de Poesia I

 


O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para
a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
 
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
 
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
 
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.
 
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de
secretário-geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
 
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
 
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!
 
Mario Pinto de Andrade ( escritor angolano 1928-1990)


domingo, 19 de janeiro de 2025

Ana Beatriz Cerisara - Uma lição para a VIDA

Inaugurando nosso ciclo de estudos, compartilho o emocionante depoimento de Ana Beatriz Cerisara. Nesta belíssima entrevista, acompanhamos como ela, aos 60 anos, lidou com um câncer terminal, demonstrando uma combinação impressionante de sabedoria, resiliência e doçura.

É a própria essência do paradoxo: como "câncer terminal" pode coexistir com tanta leveza? O relato de Ana Beatriz oferece uma resposta sensível, que nos auxilia a compreender melhor o campo da Tanatologia.

Sua história ilustra a prática da Ortotanásia: a decisão consciente de permitir que o processo de morte se cumpra naturalmente, sem intervenções que prolonguem artificialmente o sofrimento. No Brasil, essa escolha é legalmente amparada pelo Conselho Federal de Medicina (desde 2010), respeitando assim a autonomia do paciente.

A boa morte é a boa vida que eu estou vivendo aqui, é disso que se trata. Morrer faz parte da vida, é merecimento morrer... não é fácil morrer. Morrer é para os fortes.”  
(Ana, partiu em 24 de março de 2018).