segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Quando o Sopro Encontrou Repouso

Ela era uma mulher linda, dona de um sorriso doce e iluminado. Uma presença que preenchia espaços e cativava até mesmo os corações mais amargos.

O tempo levou o pai, o companheiro, a mãe e um dos irmãos. Daquele núcleo familiar, ficaram três, até o dia em que outro irmão também partiu. Assim, restaram apenas dois.

Ele tentou cuidar dela com tudo o que havia em si. Mas ela acabou sendo engolida pela areia movediça da saudade e do desalento.

Eu não a conhecia; foi a primeira vez que a vi pessoalmente. Tudo o que eu sabia até ali era do amor e do cuidado que o irmão sentia por ela. Quando adentrei o pequeno apartamento, pude sentir a imensidão do vazio e do devaneio que pairavam no ambiente.

A dor da alma fez com que ela se apequenasse em seu próprio leito. Vi uma pequenina, encolhida, que com muito esforço abraçava as próprias pernas. Pareceu-me uma criança que não entendia o que estava acontecendo. Ela já não conseguia conversar; até isso lhe era um grande esforço.

Eu também me senti perdida. A vontade de livrar um semelhante da dor é angustiante quando sabemos que não podemos fazê-lo.

O que pude fazer foi falar sobre Jesus, dizer que um dia poderíamos dar um passeio, que eu poderia levá-la a um lugar onde houvesse natureza e muito verde, e que isso talvez lhe fizesse bem.

Ela apenas me respondeu, com suavidade:

— Claro… podemos ir sim.

Quando a equipe médica chegou para buscá-la, vi em seu rosto — que até então eu não conhecia — o pavor de sair de sua própria casa, do seu lugar. O suor denunciava o medo.

Ajoelhei-me à beira da cama e disse:

— O mais importante está acontecendo. Você está sendo cuidada. Você não está sozinha.

Mesmo com medo, ela me acenou que sim com a cabeça.

Ela foi levada pela equipe médica…

E voltou para a verdadeira casa. Ela se foi.

Para trás, ficou a saudade no coração do irmão, que me disse, com a voz cansada:

— Estou cansado de tantas perdas.

Meu coração sente pela partida. Sente pela saudade do irmão que fica. E deseja que a luz divina a guie de volta para sua verdadeira morada e conforte aqueles que permanecem.

Hoje, o sopro da vida se esvaiu, trazendo descanso a quem sofria.

E eu fiquei pensando que, às vezes, a vida não nos pede para salvar ninguém — apenas para estar presente enquanto o outro atravessa o escuro da noite.

Há partidas que não são derrotas, mas o repouso leve de um pássaro que nos visita num momento inusitado.

E há saudades que permanecem como uma chama silenciosa, lembrando que amar alguém é também aprender a deixar partir.

Hoje, o silêncio já não me pareceu vazio. Havia nele algo sereno… como se, enfim, a dor tivesse encontrado descanso.



Nenhum comentário:

Postar um comentário