terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Terça-feira de carnaval

Tomei a estrada de volta para casa. Estrada vazia na maior parte do percurso. Cansada pelo deslocamento físico, mental e emocional. Pela ausência de lugar, pela pressão do mundo, pelas coisas da vida… Muitas dúvidas e algumas respostas.

Perto de determinado trecho, uma picape compacta à minha frente invadiu a contramão, indo completamente à outra extremidade da estrada. Os veículos reduziram a velocidade. Além da graça divina de estarem numa subida, foi tudo muito rápido, mas eu consegui ver a cabeça do motorista da picape tombar, como se sentisse algum mal repentino. Da mesma forma que ele foi em direção contrária, voltou para a pista correta. Foi tudo muito rápido.

A princípio, simplesmente não entendi o que estava acontecendo. Então voltei meu olhar para os carros que vinham no sentido oposto. Sabe… ali tive a sensação de que uma mão separou a picape dos carros que vinham na pista e a puxou de volta para a realidade.

Ao voltar para a pista certa, pisquei o farol e emiti leves buzinadas. O motorista deu seta para a direita e eu também; paramos no acostamento. Liguei o pisca-alerta, desci do carro e fui ao seu encontro.

Quando olhei para ele, vi um senhor já de cabelos brancos, e seus olhos emanavam exaustão. Minha primeira pergunta foi: — O senhor está se sentindo bem? O senhor me permite ligar para algum parente que possa ajudar?

Ele estava de uniforme. Havia saído do trabalho e ido direto a um atendimento médico, pois não estava se sentindo muito bem. Já havia tomado soro e outras medicações.

Insisti em ligar para que alguém pudesse vir até ele… e a resposta me doeu o coração:

— Moça, não tem para quem ligar. Eu sou sozinho, não tenho ninguém.

Ouvir aquilo me trouxe muitas reflexões, e eu apenas consegui responder:

— Então, nesse caso, posso dizer que para mim foi muito claro que a mão de Jesus protegeu o senhor e os que vinham na estrada, e puxou o senhor de volta.

Nesse momento, ele começou a chorar. Contou que trabalhou o carnaval todo como segurança de festa de rua. Disse que, apesar de ser aprendiz da palavra de Deus, esses lugares são muito carregados, mas que não esteve ali porque queria, e sim porque precisava trabalhar. Falou da saudade da esposa, da esperança de restaurar sua união com ela, e do cansaço que estava vivendo. Mas, acima de tudo, falou sobre a fé que o sustentava.

Ofereci água, café — havia um comércio do outro lado da estrada —, mas ele agradeceu e disse que estava bem, que ficaria um tempo ali parado para se recuperar melhor. Falou sobre o susto da possibilidade de ter machucado outras pessoas, e que não foi por mal ou intenção.

Dois desconhecidos à beira de uma estrada movimentada… e nós dois sentimos a presença e o milagre de Jesus que, naquela breve conversa, se fez imensidão em profundidade.

Ele chorou, e eu também. Pois não era só o cansaço físico que o consumia… ali havia um cansaço na alma daquele senhor, que, com olhos vermelhos e cheios de lágrimas, parecia querer apenas um momento de descanso para sua dor.

Como eu sei de tudo isso?

Eu não sei de nada. Apenas sinto o que está ao meu redor.

Depois de nossa conversa, ele ficou lá, parado, reflexivo, choroso, com o pensamento e o sentimento em Cristo. Pois Ele estava ali.

Eu me despedi, entrei no carro e segui meu caminho, trazendo comigo a reflexão sobre a vulnerabilidade humana e a grandiosidade do amor de Cristo.

Pensei que a verdadeira grandiosidade acontecia quando encontramos Deus em nosso caminho.

Mas eu estava errada.

Não encontramos Deus no caminho… Ele é o caminho.



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