sábado, 21 de fevereiro de 2026

Sons da Alma

 

🕯️🎶 Samuel Barber – Agnus Dei (arr. Adagio for Strings, Op. 11)

Laurens Symfonisch | Reg. Wiecher Mandemaker – coro sinfônico 🎙️

Samuel Barber tinha 26 anos quando escreveu um movimento de quarteto de cordas. Não era um réquiem. Não era um hino fúnebre. Era só o segundo movimento de uma peça de câmara, inspirado por um poema latino sobre colheitas e lavoura. Mas alguma coisa naquela melodia tocava um nervo que ninguém conseguia nomear — e o mundo, por instinto coletivo, passou a usá-la para carregar seus mortos. Roosevelt, Kennedy, o 11 de setembro. Sempre ela.

O que Barber escreveu para cordas já carregava esse peso. Mas quando a melodia é transferida para vozes humanas, algo muda de natureza. A corda vibra por atrito; a voz vibra por dentro do corpo — pulmão, diafragma, garganta, osso. O Agnus Dei não é uma transcrição, é uma revelação: o texto litúrgico que pede "dai-nos a paz" encontra uma melodia que já sabia pedir isso antes de ter palavras. E aqui, dentro da Sint-Janskathedraal, com 700 anos de pedra devolvendo cada harmônico, o som não sai dos cantores — sai das paredes, do teto, do chão. Sessenta vozes se subdividem, a dinâmica sobe do silêncio quase inaudível até um fortíssimo que não é explosão: é o peso de algo inevitável chegando devagar.

Preste atenção no trecho em que todas as vozes se abrem ao mesmo tempo. Não há microfone de palco amplificando nada — é só acústica natural e reverberação gótica. O som demora a morrer, e esse atraso é parte da música: cada nota carrega a sombra da anterior. É por isso que essa peça aperta o peito sem pedir licença. Barber não compôs uma tristeza. Compôs o formato exato do espaço que a perda deixa dentro da gente — e a catedral só torna visível o que já estava ali.

👉 Vídeo e texto extraídos da página do Instagram: @reelsclassicos

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Terça-feira de carnaval

Tomei a estrada de volta para casa. Estrada vazia na maior parte do percurso. Cansada pelo deslocamento físico, mental e emocional. Pela ausência de lugar, pela pressão do mundo, pelas coisas da vida… Muitas dúvidas e algumas respostas.

Perto de determinado trecho, uma picape compacta à minha frente invadiu a contramão, indo completamente à outra extremidade da estrada. Os veículos reduziram a velocidade. Além da graça divina de estarem numa subida, foi tudo muito rápido, mas eu consegui ver a cabeça do motorista da picape tombar, como se sentisse algum mal repentino. Da mesma forma que ele foi em direção contrária, voltou para a pista correta. Foi tudo muito rápido.

A princípio, simplesmente não entendi o que estava acontecendo. Então voltei meu olhar para os carros que vinham no sentido oposto. Sabe… ali tive a sensação de que uma mão separou a picape dos carros que vinham na pista e a puxou de volta para a realidade.

Ao voltar para a pista certa, pisquei o farol e emiti leves buzinadas. O motorista deu seta para a direita e eu também; paramos no acostamento. Liguei o pisca-alerta, desci do carro e fui ao seu encontro.

Quando olhei para ele, vi um senhor já de cabelos brancos, e seus olhos emanavam exaustão. Minha primeira pergunta foi: — O senhor está se sentindo bem? O senhor me permite ligar para algum parente que possa ajudar?

Ele estava de uniforme. Havia saído do trabalho e ido direto a um atendimento médico, pois não estava se sentindo muito bem. Já havia tomado soro e outras medicações.

Insisti em ligar para que alguém pudesse vir até ele… e a resposta me doeu o coração:

— Moça, não tem para quem ligar. Eu sou sozinho, não tenho ninguém.

Ouvir aquilo me trouxe muitas reflexões, e eu apenas consegui responder:

— Então, nesse caso, posso dizer que para mim foi muito claro que a mão de Jesus protegeu o senhor e os que vinham na estrada, e puxou o senhor de volta.

Nesse momento, ele começou a chorar. Contou que trabalhou o carnaval todo como segurança de festa de rua. Disse que, apesar de ser aprendiz da palavra de Deus, esses lugares são muito carregados, mas que não esteve ali porque queria, e sim porque precisava trabalhar. Falou da saudade da esposa, da esperança de restaurar sua união com ela, e do cansaço que estava vivendo. Mas, acima de tudo, falou sobre a fé que o sustentava.

Ofereci água, café — havia um comércio do outro lado da estrada —, mas ele agradeceu e disse que estava bem, que ficaria um tempo ali parado para se recuperar melhor. Falou sobre o susto da possibilidade de ter machucado outras pessoas, e que não foi por mal ou intenção.

Dois desconhecidos à beira de uma estrada movimentada… e nós dois sentimos a presença e o milagre de Jesus que, naquela breve conversa, se fez imensidão em profundidade.

Ele chorou, e eu também. Pois não era só o cansaço físico que o consumia… ali havia um cansaço na alma daquele senhor, que, com olhos vermelhos e cheios de lágrimas, parecia querer apenas um momento de descanso para sua dor.

Como eu sei de tudo isso?

Eu não sei de nada. Apenas sinto o que está ao meu redor.

Depois de nossa conversa, ele ficou lá, parado, reflexivo, choroso, com o pensamento e o sentimento em Cristo. Pois Ele estava ali.

Eu me despedi, entrei no carro e segui meu caminho, trazendo comigo a reflexão sobre a vulnerabilidade humana e a grandiosidade do amor de Cristo.

Pensei que a verdadeira grandiosidade acontecia quando encontramos Deus em nosso caminho.

Mas eu estava errada.

Não encontramos Deus no caminho… Ele é o caminho.



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Quando o Sopro Encontrou Repouso

Ela era uma mulher linda, dona de um sorriso doce e iluminado. Uma presença que preenchia espaços e cativava até mesmo os corações mais amargos.

O tempo levou o pai, o companheiro, a mãe e um dos irmãos. Daquele núcleo familiar, ficaram três, até o dia em que outro irmão também partiu. Assim, restaram apenas dois.

Ele tentou cuidar dela com tudo o que havia em si. Mas ela acabou sendo engolida pela areia movediça da saudade e do desalento.

Eu não a conhecia; foi a primeira vez que a vi pessoalmente. Tudo o que eu sabia até ali era do amor e do cuidado que o irmão sentia por ela. Quando adentrei o pequeno apartamento, pude sentir a imensidão do vazio e do devaneio que pairavam no ambiente.

A dor da alma fez com que ela se apequenasse em seu próprio leito. Vi uma pequenina, encolhida, que com muito esforço abraçava as próprias pernas. Pareceu-me uma criança que não entendia o que estava acontecendo. Ela já não conseguia conversar; até isso lhe era um grande esforço.

Eu também me senti perdida. A vontade de livrar um semelhante da dor é angustiante quando sabemos que não podemos fazê-lo.

O que pude fazer foi falar sobre Jesus, dizer que um dia poderíamos dar um passeio, que eu poderia levá-la a um lugar onde houvesse natureza e muito verde, e que isso talvez lhe fizesse bem.

Ela apenas me respondeu, com suavidade:

— Claro… podemos ir sim.

Quando a equipe médica chegou para buscá-la, vi em seu rosto — que até então eu não conhecia — o pavor de sair de sua própria casa, do seu lugar. O suor denunciava o medo.

Ajoelhei-me à beira da cama e disse:

— O mais importante está acontecendo. Você está sendo cuidada. Você não está sozinha.

Mesmo com medo, ela me acenou que sim com a cabeça.

Ela foi levada pela equipe médica…

E voltou para a verdadeira casa. Ela se foi.

Para trás, ficou a saudade no coração do irmão, que me disse, com a voz cansada:

— Estou cansado de tantas perdas.

Meu coração sente pela partida. Sente pela saudade do irmão que fica. E deseja que a luz divina a guie de volta para sua verdadeira morada e conforte aqueles que permanecem.

Hoje, o sopro da vida se esvaiu, trazendo descanso a quem sofria.

E eu fiquei pensando que, às vezes, a vida não nos pede para salvar ninguém — apenas para estar presente enquanto o outro atravessa o escuro da noite.

Há partidas que não são derrotas, mas o repouso leve de um pássaro que nos visita num momento inusitado.

E há saudades que permanecem como uma chama silenciosa, lembrando que amar alguém é também aprender a deixar partir.

Hoje, o silêncio já não me pareceu vazio. Havia nele algo sereno… como se, enfim, a dor tivesse encontrado descanso.



quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O Luto Transforma-Dor



Assisti a Nonnas uma produção encantadora que convida à reflexão, uma pergunta sensível e silenciosa: o que fazemos com o amor que não tem mais onde pousar?

Ao perder a mãe, Joe encontra um caminho que reconheço intimamente — o de transformar a dor em memória viva, e a saudade em gesto. Ele não tenta apagar a morte, nem seguir em frente como se nada tivesse sido perdido. Ao contrário, ele caminha com a perda, permitindo que ela se transforme em legado.

Esse é o tipo de luto que toca minha alma: o luto transformativo. Aquele que não busca esquecer, mas integrar. Que compreende que amar alguém profundamente é aceitar que esse amor continuará pedindo expressão mesmo depois da morte. Em Nonnas, a comida, as histórias e os encontros funcionam como rituais sutis de elaboração — pequenas formas de dizer “você ainda vive em mim”.

Esse filme me lembrou que algumas presenças não se encerram no fim da vida física. Elas permanecem nos gestos que repetimos, nos cuidados que herdamos e na maneira como escolhemos estar no mundo. O amor materno, aqui, não é lembrança distante — é raiz.

Nonnas é um convite delicado a olhar para o luto não apenas como ferida, mas também como possibilidade de continuidade. Uma narrativa onde a morte não interrompe o vínculo, apenas o transforma.


Como o luto transforma a dor em VIDA.