segunda-feira, 14 de julho de 2025

O Pior Vizinho do Mundo


Acabei de assistir ao filme "O Pior Vizinho do Mundo", e ainda me sinto tocada pela estória de Otto Anderson, brilhantemente interpretado por Tom Hanks. 

Um homem que, após a perda da esposa, se torna amargurado, fechado e mau-humorado, que busca incansavelmente ocupar o próprio tempo, cuidando das coisas que o rodeiam. Uma forma de se desviar da própria dor, uma forma de não suportar sua vida e seus sentimentos, uma armadura criada para que as pessoas não vejam o quanto sua dor o deixa vulnerável.

Ao longo da trama, Otto tenta várias vezes se "despedir" da vida. Mas é como se uma força maior o impedisse. E a leitura que faço desse recorte é que, a vida luta pela vida o tempo todo. Por mais que haja dor e sofrimento, a vida luta pela vida através de pequenos gestos de amor, gentileza, acolhimento... 

A vida luta pela vida e nos assopra aos ouvidos "Eu sou a vida e estou aqui com você"! Ela se manifesta nos pequenos gestos: no sorriso de um vizinho, num prato de comida partilhado, num abraço inesperado ou na lembrança de um amor que não se apaga.

Por mais escura que a noite pareça, há sempre um fio de luz tentando nos alcançar.
Memento vivere — lembre-se de viver.

sábado, 12 de julho de 2025

Nossa Senhora da Boa Morte


Nossa Senhora da Boa Morte é uma devoção mariana (veneração à Virgem Maria) presente em diversas regiões católicas, especialmente no Brasil. Acredita-se que essa invocação surgiu da crença na Assunção de Maria ao céu, ou seja, que ela teve uma "boa morte" — uma passagem serena e sem dor, acolhida diretamente por Deus.

A palavra "boa morte" não se refere apenas à ausência de sofrimento físico, mas à paz espiritual e à salvação da alma no momento da partida.

A devoção tem raízes portuguesas e espanholas, trazida para o Brasil durante o período colonial. No século XIX, essa figura mariana foi profundamente incorporada à religiosidade popular, especialmente entre mulheres negras libertas e escravizadas, que viam na imagem da Santa um símbolo de esperança diante da dor e da injustiça.

Irmandade da Boa Morte (Bahia – Cachoeira)


                                                                                                                        Fonte da imagem G1    


Talvez o exemplo mais famoso dessa devoção no Brasil seja a Irmandade da Boa Morte, formada por mulheres negras católicas em Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Fundada no século XIX, a irmandade é um marco da resistência negra e da espiritualidade afro-brasileira.

Características:

  • Mulheres mais velhas e respeitadas da comunidade;

  • Vestem-se com roupas de gala e trajes litúrgicos;

  • Misturam elementos do catolicismo e do candomblé;

  • Realizam procissões, novenas, rezas e festas com danças e comida típica.

A Festa da Boa Morte

Realizada geralmente entre os dias 13 e 17 de agosto, a festa celebra a morte e assunção de Maria, mas também é uma forma de reafirmação da cultura afro-brasileira, da fé e da luta contra o racismo.

A festa é dividida em dois momentos:

  1. Rito religioso: missas, cânticos e procissões.

  2. Celebração popular: samba de roda, comidas típicas, confraternizações, oferendas.

Simbolismo Espiritual e Tanatológico

  • Maria representa o acolhimento no momento da morte, como um portal entre o mundo dos vivos e o divino;

  • A devoção traz conforto aos enlutados e esperança de uma transição serena;

  • Na tradição da irmandade, a morte não é fim, mas passagem;

  • Une o sagrado feminino, a ancestralidade, a espiritualidade negra e a luta por dignidade.

Além do aspecto espiritual, a Irmandade da Boa Morte é símbolo de:

  • Resistência negra feminina;

  • Luta pela liberdade e reconhecimento social;

  • Conexão com os orixás (sobretudo com Iansã e Nanã, ligadas à morte e ancestralidade).