domingo, 26 de outubro de 2025

A morte e a cultura mexicana.

A cultura mexicana tem uma relação única e bastante particular com a morte, que se manifesta de forma mais vibrante no Dia dos Mortos (Día de Los Muertos), celebrado em 1 e 2 de novembro.

Longe de ser um evento sombrio, a morte é vista como uma fase do ciclo da vida e um motivo para festa, honra e memória dos entes queridos que já partiram. Acredita-se que, nesta data, os falecidos voltam à Terra para visitar seus familiares.

A celebração é marcada por altares coloridos (oferendas) decorados com flores de calêndula (cempasúchil), velas, caveiras de açúcar (calaveritas), e as comidas e bebidas favoritas dos mortos. Famílias se reúnem em cemitérios, limpam e decoram os túmulos, compartilham refeições e músicas, transformando o local em um espaço de convívio festivo.

Símbolo icônico "La Catrina"

La Catrina é uma das figuras mais emblemáticas do Dia dos Mortos e um ícone da cultura popular mexicana.

Criada originalmente como uma gravura satírica pelo cartunista José Guadalupe Posada no início do século XX, ela representava um esqueleto feminino, elegantemente vestido com chapéu e roupas da alta sociedade europeia. O termo "catrina" é o feminino de "catrín" (homem elegante).

O objetivo inicial de Posada era fazer uma crítica social àqueles que negavam suas raízes indígenas para adotar costumes europeus, lembrando que, no final, a morte é universal e não discrimina ninguém, não importando a classe social ou a riqueza.

Mais tarde, o pintor Diego Rivera a popularizou em seu mural Sonho de uma Tarde Dominical na Alameda Central (1946-1947), dando-lhe o nome de "Catrina" e vestindo-a completamente. Hoje, a imagem é usada para representar a festividade e a relação alegre do povo mexicano com a morte.

Sueño de una Tarde Dominical en la Alameda Central - Diego Rivera |  FeelTheArt 

Com cores vibrantes e um toque de magia, a animação 'A Vida é uma Festa' (2018) oferece um retrato sensível e bem-humorado de como os mexicanos encaram a morte, transformando o luto em uma festa de reverência à ancestralidade.

Un Poco Loco (Versão Em Português) - Viva - A Vida É Uma Festa -  LETRAS.MUS.BR 

Abaixo, um belíssimo vídeo extraído do Instagram (@catrinachristina e @build.and.believe)

 



 

 

domingo, 19 de outubro de 2025

O Paradoxo da Vida

A vida se revela em seu maior paradoxo: somos arremessados à existência sem um manual, obrigados a construir quem somos a cada escolha, ato e renúncia.

Nessa jornada, a essência do ser humano não é um ponto de partida fixo, mas sim o fruto dessa constante transformação. O paradoxo se estabelece na tensão entre a busca por um sentido (o que deve ser) e o que nos tornamos pelas nossas escolhas.

O verdadeiro encontro com a própria essência ocorre não quando encontramos uma resposta definitiva, mas quando abraçamos a responsabilidade de criá-la. É na vulnerabilidade de ser imperfeito, no caos das contradições e na consciência da finitude que o ser emerge, autêntico, como um projeto inesgotável. Viver, em essência, é suportar esse paradoxo.

 

 

Os tipos de Luto

O luto é uma resposta natural e complexa a uma perda significativa, que pode ser a morte de alguém, o fim de um relacionamento, a perda de um emprego, ou mesmo a perda de uma capacidade física, entre outros.

Embora o luto seja uma experiência muito pessoal e individual, a psicologia e a tanatologia (o estudo da morte e do morrer) identificam diferentes tipos e formas de manifestação, que ajudam a entender e classificar as reações das pessoas.

1. Luto Normal ou Natural

  • Características: É a reação esperada e saudável à perda, envolvendo as fases clássicas (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, embora nem sempre nessa ordem) e um período de tristeza e desorganização que, gradualmente, diminui com o tempo. A pessoa consegue, pouco a pouco, retomar as atividades diárias e reconstruir a vida, mantendo a memória do perdido.

  • Duração: Geralmente, dura de alguns meses até cerca de um ou dois anos.

2. Luto Complicado ou Prolongado

  • Características: A dor e o sofrimento permanecem intensos, incapacitantes e não diminuem significativamente com o tempo (geralmente, mais de 12 meses, dependendo da classificação clínica). A pessoa fica "presa" no luto, focada intensamente na perda, com dificuldade extrema em aceitar a morte, retomar a rotina e planejar o futuro. Pode levar a problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade crônicas.

  • Necessidade: Requer intervenção profissional especializada (psicoterapia e, às vezes, psiquiatria).

3. Luto Antecipatório

  • Características: Ocorre antes da perda real, geralmente quando a morte é esperada devido a uma doença terminal ou condições crônicas. A pessoa começa a se despedir e a processar a perda enquanto o ente querido ainda está vivo.

  • Função: Pode ajudar a amortecer o choque inicial quando a morte finalmente ocorre, mas também pode ser muito desgastante.

4. Luto Não Reconhecido (ou Desautorizado)

  • Características: É a dor pela perda que não é validada, aceita ou apoiada pela sociedade, família ou cultura. O luto não é "permitido" ou é minimizado.

  • Exemplos: Luto por um ex-cônjuge, pela perda de um animal de estimação, luto de um amante, luto gestacional ou neonatal (onde a perda é frequentemente minimizada com frases como "você pode ter outro"), luto de profissionais de saúde pela morte de pacientes.

  • Impacto: Por ser reprimido, o sofrimento pode se tornar mais intenso e difícil de ser elaborado.

5. Luto Ausente ou Inibido

  • Características: A pessoa não demonstra (ou não se permite sentir) nenhuma reação de luto imediatamente após a perda. Os sentimentos são bloqueados ou reprimidos, muitas vezes devido ao choque ou à necessidade de se manter forte para outras pessoas.

  • Risco: Se o luto não for processado, a dor pode ressurgir mais tarde (luto adiado) ou se manifestar através de sintomas físicos (psicossomáticos) ou transtornos de saúde mental.

6. Luto Adiado ou Tardio

  • Características: A reação de luto surge muito tempo depois da perda inicial (meses ou anos depois), devido a uma repressão inicial (luto ausente) ou por não ter havido oportunidade para vivenciar a dor no momento. O luto reprimido emerge quando as circunstâncias permitem ou quando há uma nova perda.

7. Luto Traumático

  • Características: Associado a mortes que ocorrem de forma súbita, violenta, inesperada ou em circunstâncias traumáticas (acidentes, suicídio, assassinato, desastres). Além do luto pela perda, há o trauma do evento em si, podendo levar a sintomas de estresse pós-traumático.

  • Sofrimento: O foco é menos na saudade e mais nas circunstâncias da morte.

8. Luto Coletivo

  • Características: Ocorre quando um grande número de pessoas é afetado simultaneamente por uma perda (desastres naturais, pandemias, ataques terroristas, tragédias em massa). A dor é compartilhada e vivenciada em nível comunitário ou social.