domingo, 9 de fevereiro de 2025

O carnaval de "Cicinha"

Dulce criou três filhos e os educou muito bem, mesmo quando ficou viúva, nunca largou as rédeas da educação dos filhos. Mulher de sensibilidade e doçura ímpar e ao mesmo tempo fortaleza de sua família.

Os filhos cresceram, estudaram e trabalharam mas nunca deixaram de cuidar da mãe. Eram felizes, tiveram uns aos outros de forma pura e verdadeira. As lembranças deixadas por ela, foram as mais doces e tocantes.

Em determinado momento de suas vidas, foram pegos de surpresa, Dulce estava doente. Ninguém espera ser assolado por uma enfermidade que o fará partir. A levaram ao médico e... já não havia o que a medicina pudesse fazer por ela. O que os filhos fizeram, foi o de sempre, doar todo o amor e cuidado que também um dia receberam.

Antes da confirmação médica, pediu a um dos filhos: "Se um dia essa coisa (CA) me pegar, não quero que me contem". E assim, eles fizeram. O silêncio em relação à doença era sereno entre eles e a mãe. Ela era um mulher muito inteligente, só não queria ouvir o que ela já sabia. 

O médico aconselhou que voltassem a terra natal, Congonhas/MG; para que ela pudesse ficar mais próxima dos seus e ter alguma qualidade de vida até chegar a hora de sua partida.

Cicinha, como era conhecida, era foliã de carteirinha, amava pular carnaval, mas digo do carnaval das marchinhas, do Pierrot, Arlequim e Colombina. Inclusive, houve um ano em que Cicinha se fantasiou de Pierrot, esse personagem a encantava - apesar do amor platônico por Colombina - Pierrot trazia encantamento ao coração de Cicinha. Ela nunca abriu mão da realidade, mas era uma escolha lidar com ela com doçura e leveza, como brincar a magia do carnaval de outrora.

Dulce amou e foi amada, honrou e foi honrada pelo marido, foi cuidada com amor pelos filhos, foi uma mulher respeitada e admirada pela família e amigos. Em 30 dias hospitalizada, Cicinha teve o bálsamo que pouquíssimos têm, não foi tomada pela dor física, foram 30 dias sem dor. Em uma noite, pouco antes de sua partida, Cicinha contou a um de seus filhos:

"Meu filho, essa noite sonhei que estava pulando carnaval!" e sorriu como quem dizia, "Filho, é chegada minha hora, mas vou-me com a alegria que vivi, com dever cumprido de não ter deixado que o mundo apagasse minha doçura e nem sufocasse minha melodia".

E assim, Cicinha partiu, 'carnavaleando' com Pierrots, Arlequins e Colombinas...

Aos seus, deixou o legado da beleza e leveza desse sopro divino chamado VIDA.

Conto autorizado pelo filho, Geraldo Di Oliveira.

D. Dulce




A dor que virou música.

Essa música surgiu de uma dor na alma que através da arte, obtive o bálsamo. Agradeço a sensibilidade do amigo e músico, Geraldo Di Oliveira, gratidão pelo companheirismo e por estender-me a mão todas as vezes que precisei. "Tudo é momento" ele disse, e são nesses momentos em que fazemos a escolha pela VIDA é que a mágica acontece...

"Meu Universo é o Mar" é um desabafo, um suspiro de alívio. 
Letra: Bárbara Ramos
Música: Geraldo Di Oliveira
Bateria/Rítmo: Leandro Rezende




La Catrina


Não sou como muitos me vêem.

Sou, nada mais, nada menos

do que a transformação e a continuação da VIDA.

Posso ser um degrau da consequência, da reação...


Sou um degrau da Evolução.


Sou inevitável, e o meu maior poder...

O poder da transformação.

Transformar em algo bom ou ruim?

O que é bom?

O que é ruim?


Não depende de mim, e sim

do que você fará com isso.


Sou aquela que lhe convida a repensar a vida daqui...

Sou aquela que lhe convida a olhar com amor para si mesmo...

Sou aquela que lhe convida a olhar com amor para o outro...

Sou aquela que lhe convida a sentir a essência da VIDA... 


Sou aquela que lhe convida a refletir sobre sua bagagem...

A bagagem intangível, a que não se pode ver,

porque foi feita para sentir...


A bagagem vital.


Sou aquela que lhe acolherá no final,

estendendo-lhe as mãos para um novo começo.

Sou... La Catrina.


Bárbara Ramos (2019)


A queda

Ele estava cansado, a mente, o coração já não conseguiam processar situações rotineiras. Mas, por ser homem, e homem da segurança pública, seu papel era ser forte e inabalável; esse era o pensamento 'bigorna' que comprimia a sua mente a cada vez que ele tinha a sensação que iria cair.

O problema nunca é a gota d'água, e sim, a água que acumula dentro do copo. Aguentou, acumulou, não processou e... transbordou, explodiu.

O surto veio com a prematura foice, o corte abrupto que deixou família e amigos sem chão, sem resposta, num silêncio que dilacera. 

Na mente dos que ficaram, muitas perguntas e nenhuma resposta: por quê? ele parecia tão bem, conversamos ontem e parecia tudo bem... Parecia tudo bem...

Cada um de nós é um mundo, um universo, repleto de sonhos, vontades, anseios... Já passou da hora de enxergarmos com o coração uns aos outros. Muitos estão se perdendo em caminhos turvos por se sentirem DORmentes...

Mais um corte no fio da vida, menos um número para Katástasi. A sensação de desamparo, a angústia e a pergunta: "onde foi que nos perdemos quanto HUMANidade?".



Tempo de Poesia I

 


O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para
a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
 
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
 
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
 
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.
 
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de
secretário-geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
 
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
 
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!
 
Mario Pinto de Andrade ( escritor angolano 1928-1990)